[85 poemas reunidos neste livro, póstumo...]
DESENHO CONTRA O RECTÂNGULO
Se o amor se traduzisse numa figura geométrica
seria aquele rectângulo em que o teu corpo
se reflectiu, num verão antigo, e um sorriso
nasceu no teu rosto como se, na tua imagem,
surgisse a imagem que sonhavas. E o que
eu sonhava era tirar cada um dos lados
do rectângulo e puxar-te para fora do vidro,
em todas as tuas dimensões, como se fosse
possível separar o espelho de quem nele
se reflecte. E avanço com o dedo em direcção
ao vidro, desenhando o teu perfil na sua
inquebrantável superfície enquanto o teu sorriso
se transforma em riso ao ver a inutilidade
do meu gesto. Porém, uma e outra vez,
até ao infinito, farei esse desenho até que ouça
a realidade do teu riso e a tua voz que,
por trás de mim, me explica o que devo fazer
para que a tua imagem ganhe a matéria que
procuro, e me possas dizer qual a melhor forma
de traduzir o amor numa forma geométrica.
Nuno Júdice, Primeiro poema, 2026, p. 66