quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

«Para desenhar uma mulher», Rita Taborda Duarte

 2. Para desenhar uma mulher

Começa pelos pés
se queres desenhar uma mulher

ignora - por ora - os olhos rotos
no avesso do sono   a turbulência do colo
as águas turvas
sovando o rodízio dos cabelos.

Fecha um olho  estica o polegar
- cabem-lhe perfeitamente oito corpos na cabeça:
é essa   aliás   a proporção áurea da penúria.

Depois é cavar a redor   e içar talo
sorvendo o enxofre das caldeiras:
há-de medrar   ao menos   um pé
de uvas bravas ou a forca
de uma figueira
acanhando a carne dos figos

fixar à raiz uma promessa de água calda
e castigada
ruína a sal e fogo sulfurosa ruim
desaprendendo    à força    a cisma dos caminhos.

Pelos pés se começa uma mulher
só mais tarde se dobra o degrau dos joelhos
até à coxa
e se contorna o sexo recatado - paul
no ventre lêvedo

uma mulher começa sempre pelos pés
de barro: Lilith - mordendo o pó
de onde nascera,
do sarro nas unhas de deus -
coalho para engolir a fome

é ali que respiramos
e só água fervente nos dana a sede.
Se queres
desenhar uma mulher
vale mais começares por um pé
de cabra.

                 Rita Taborda Duarte, Enxofre, Colecção elemeNTário, Flan de Tal, 2025, pp. 25-29