terça-feira, 8 de novembro de 2016

«A Gorda» - Isabela Figueiredo

[rapidamente lido em 4, 5 dias, ...;
- não se escolhe um excerto com «ligação direta» ao título - ...]

[...] E a mamã morreu mesmo, sem conseguir o feito de entrar docilmente na noite serena e odiando a luz que começava a morrer. Como a entendo! Que difícil será desistir, deixar para trás, libertar o peso que queremos manter porque esteve connosco e nos matou e amparou no mesmo minuto, porque tudo é o que é e o seu contrário. Como é que se abdica da vida?!
     Era para lhe ter pedido uns conselhos na véspera à noite, mas já era tarde. A conversa fica adiada para um sonho futuro. Não lhe dei o beijo de boas noites. Há um dia em que todas as noites acabam.
    Tenho-a sepultada em campa rasa no cemitério de Vale de Flores, Feijó, com uma tabuleta de metal negro onde pintaram um 880 a tinta branca. Talhão B, campa 880. A mamá deixou de ser um nome associado a uma data de nascimento, filha de fulano e sicrano, nascida na freguesia tal, de determinado concelho do país. Pesa-me, porque a mamã nunca foi uma combinação de números. A mamã atravessou vidas e oceanos. A mamã rasgou o véu da existência e inscreveu-se nela, para sempre. Um número?!
    Preciso de comprar uma  lápide para a mamã, para que ela veja, de onde está, que me aguento sozinha, apesar da sua ausência, que pode orgulhar-se de mim pelos séculos dos séculos. Mas o orgulho tem de esperar. Os cortes no salário, os impostos e a sobretaxa do IRS mal me deixam respirar. Dá para viver, não para despesas adicionais. A prima Fá emprestou-me o valor do funeral. Se a mamá soubesse, meu Deus, se ela soubesse! Ainda bem que se foi.

A Gorda, Isabela Figueiredo, Caminho, 2016 (outubro), p. 209, 10


Sete anos depois de se estrear com (...),
Isabela Figueiredo publica, aos 53 anos,
o seu primeiro romance - 
NUNO FERREIRA SANTOS

[crítica de Hugo Pinto Santos, no «ípsilon», de 24 - 11 -        AQUI ]

[«Panorama»,  de Rui Catalão, no mesmo «Endereço» - com fotos... AQUI]