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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

«Balada do Adeus» (Manuel Alegre)

BALADA DO ADEUS

                            A pedido de Ricardo Ribeiro

Vi uma torre caindo
dentro da palavra adeus
porque eu vou indo vou indo
por estes caminhos meus.

Por estes caminhos meus
onde outrora andei aos ninhos
fica um adeus um adeus
minha casa é nos caminhos.

Minha casa é nos caminhos
onde busco um mais além
viajantes vão sozinhos
fica um adeus e ninguém.

Fica um adeus e ninguém
adeus terra da alegria
meu país é mais além
depois da noite e do dia.

Depois da noite e do dia
adeus choupos e trigais
adeus terra da alegria
fica um adeus e não mais.

                 Manuel Alegre, Balada do corsário dos sete mares, 2026 (Fevereiro), pp. 71-72 

sábado, 24 de janeiro de 2026

«GOOGLE EARTH», Rui Lage

 GOOGLE EARTH

Onde quer que estejas, considera, poderás
mapear os pastos e os pomares
onde suaram, derreados, teus avós;
sobrevoá-los, de ponta a ponta,
zoom in zoom out
no cemitério que lhes arrecada os ossos.

Estarás sempre com o campo.
Sem tocares o chão.
Sem sujares os sapatos.

E mesmo na hora mais extrema,
quando, entubado, olhares em volta
e não vires senão as paredes nevadas
dos paliativos, 
poderás contemplar os sobreiros, a ponte de madeira,
a pedra da sesta e a macieira que dava 
as melhores maçãs,
como ave migradora que passasse invisível lá no alto.

O homem não é a medida de todas as coisas.
O homem é aquele que mediu todas as coisas

Somente à escala humana
as coisas morrem desmedidas.

                 Rui Lage, Física espiritual - antologia pessoal, 2026, pp. 121-122 (poema de Estrada Nacional, 2016)

[no Comp.or, ontem, R. «esquadrinhou» -  zoom in zoom out - o Chão do Pai Velho e o da Marechal...]
[Sobre R. Lage, P. Mexia, em «O poema ensina...», de 27 de Fevereiro, a partir de cerca do minuto 44...]

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

«Para desenhar uma mulher», Rita Taborda Duarte

 2. Para desenhar uma mulher

Começa pelos pés
se queres desenhar uma mulher

ignora - por ora - os olhos rotos
no avesso do sono   a turbulência do colo
as águas turvas
sovando o rodízio dos cabelos.

Fecha um olho  estica o polegar
- cabem-lhe perfeitamente oito corpos na cabeça:
é essa   aliás   a proporção áurea da penúria.

Depois é cavar a redor   e içar talo
sorvendo o enxofre das caldeiras:
há-de medrar   ao menos   um pé
de uvas bravas ou a forca
de uma figueira
acanhando a carne dos figos

fixar à raiz uma promessa de água calda
e castigada
ruína a sal e fogo sulfurosa ruim
desaprendendo    à força    a cisma dos caminhos.

Pelos pés se começa uma mulher
só mais tarde se dobra o degrau dos joelhos
até à coxa
e se contorna o sexo recatado - paul
no ventre lêvedo

uma mulher começa sempre pelos pés
de barro: Lilith - mordendo o pó
de onde nascera,
do sarro nas unhas de deus -
coalho para engolir a fome

é ali que respiramos
e só água fervente nos dana a sede.
Se queres
desenhar uma mulher
vale mais começares por um pé
de cabra.

                 Rita Taborda Duarte, Enxofre, Colecção elemeNTário, Flan de Tal, 2025, pp. 25-29

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

«A ideia do Fim», M. do R. Pedreira

- [foi há um ano...];

- um dos poemas de A ideia do fim, dito e comentado em «O Amor é», de 26 de OUT, «As palavras de José Cardoso Pires e de Maria do Rosário Pedreira»

Deixei de ouvir-te. E sei que sou 
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas,
se encostar ao teu pulso o meu ouvido,
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
eu não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

                     Maria do Rosário Pedreira, Poesia reunida, 2012, p. 222

sábado, 24 de maio de 2025

«MÃO ARMADA», Marta Chaves

MÃO ARMADA

Faço assaltos à minha vida, 
como se não fosse minha,
como se não fosse o assalto
a tirar-me do lugar.

Faço leituras que me descolam do espaço,
consciente de certas sensações
e da impressão de saber coisas que não sei.

Faço intervalos dentro do intervalo,
corto a realidade para entrar na realidade
com outros olhos e o mesmo coração.

Consola-me a retirada que tudo promete.

                                                         Marta Chaves, Intervalo, 2025 (Maio), p. 22

[a 4 de Julho, em «Cultas e Vinho Verde», com Inês Meneses ]

quarta-feira, 16 de abril de 2025

«Põe a tua mão na terra...» (Vergílio Ferreira)

 - [regressado ontem à «Cave do Quinto»...; no saco de pano, na maçaneta pendurado, deixou 3 livros, para MNQ., «Grande Leitora»... (que, afinal, regressara no domingo...)]; 
artigo do «Ípsilon», sobre a Casa Amarela, de V. F....]; continua R. a crer que as referências que fez, naquele final de 2002, às leituras dos livros de V. F. foram «decisivas» para a sua admissão no MEST.º...

Para Sempre:
Mas quando volto com a mala — a casa. Olho-a ainda, não me canso de a olhar. É alta, toda de amarelo, agora desbotado. Lojas, dois pisos. As empenas chanfradas, um ar poliédrico no seu facetado. E o olhar cego das janelas cerradas.”



«Os desenhos de umas mãos a remexer na terra acompanham frases do escritor manuscritas na parede: “Põe a tua mão na terra, numa árvore, numa pedra. Põe a tua mão, atende.” 


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

«Guarda o silêncio que à solidão recortas» (Castro Mendes)

 - [pelas 11 e 50, no «Palácio do Paraíso», Mestre-FILO A. Land. solicitou que R. recomeçasse a enviar textos...; do último livro de L. F. C. M., um dos adquir.os com o CH. FNC de J., do Natal, escolheu-se o que segue]

PASTICHE DE OUTONO

Deixa o tempo pousar folhas no teu rosto
e as rugas cinzelar teres vivido.
E acalenta o que em ti pode morrer,
sem entender bem teres entendido.
Será mais longo o outono que viveres
junto ao que partirá para longe de ti.
Pode ranger o vento à tua porta,
ninguém mais saberá que estás aqui.
Deixa o tempo vergar tua mão solta,
desfazer as palavras que inventaste.
Guarda o silêncio que à solidão recortas.
Mais que verso perdido ou folha morta,
mais que o tempo deixado ao desvario,
saberás do tempo que o tempo não importa
pois não se escoa o tempo como um rio.

                        Luís Filipe (de) Castro Mendes, As manhãs que não conheces.  2025 (Jan.o), p. 67

sexta-feira, 10 de maio de 2024

(ainda) «O dia Claro», que «permanecerá» (M. J. Cantinho)

 - hoje, ainda na Série de 50 poemas REVOLUÇÃO JÁ! POESIA PÚBLICA, «Público»:

Ainda o dia claro

Evoco Sophia e lembro o dia claro
contra a sombra de um passado
que teimava em enegrecer
a liberdade e o sonho.

Despertei ao som do assalto
do povo em alegria
lado a lado com os libertadores
era menina e mal compreendia.

Hoje, ao caminhar sob os jacarandás
pergunto-me se, nesta primavera,
imperam ainda o sonho e a utopia
de um país à beira de se cumprir.

Os espectros desenham-se no ar
mas o dia claro permanecerá
contra a barbárie, anunciando
a justiça que há-de vir.

Maria João Cantinho

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Red Carnations («Os Memoráveis»)

 - de manhã, rápida passagem pela FNC (até à p. 260 de «A desobediente».; 328, a 26...; 372, a 28...;) e pela P. da Figueira, «apinhada» de TURIS e agora com filas para a (nova) Suiça...; 10 anos depois, em reimpressão carton.a, «Os Memoráveis» - na p. 100...;
[também se foi reler as duas «DEDIC.as» datadas de 29-01-87, 1.º ano da NOVA + «Copo de 3»] 
RECORTE(S):         [outro:AQUI]
[...] O anfitrião ficou suspenso. Perguntou - «Pois como se chamavam as flores»?
Sim, aquelas flores vermelhas?
      Nenhum de nós se lembrava. Era inacreditável que os três soubéssemos que as páginas da pétala daquelas flores eram dentadas, uma unha longa em pecíolo forte, que tinham sido oferecidas pelas floristas logo pela manhã do próprio dia vinte e cinco quando os insurrectos galgavam a Baixa [...] Sendo assim, pois que nome tinha aquela flor? [..] de súbito Bob desconfiou, decidiu-se, deu um salto, abriu a porta de ligação, subiu ao piso de cima [...] e quando desceu trazia consigo o nome da flor. [...] Como não nos lembrávamos que se tratava de carnations? Red carnations? [...]
 
Lídia Jorge, Os memoráveis (2014), 2024, pp. 18-19

quinta-feira, 21 de março de 2024

«Cura» [«a função principal da poesia«] ; (Parrado, Luís Filipe)

CURA 

A cada dia que passa torna-se cada vez mais evidente
que a função principal da poesia
é a de criar condições
para que nos possamos perder em definitivo
no coração das florestas.
Trata-se de um processo terapêutico.
No entanto, convém ter consciência de que
qualquer perdição, por discreta que seja,
só se revelará objectivamente eficaz
se os poemas circularem sem indicação de origem
e autoria, anonimamente, 
como medicamentos genéricos 
ou de marca branca. Se tal acontecer
(perdidos, clarividentes), os leitores não precisarão
de decorar nomes de poetas, apenas versos; ou poemas inteiros.

Luís Filipe Parrado, Museu da angústia natural, 2023, p. 23

segunda-feira, 18 de março de 2024

«Renascimento», Nuno Júdice

 RENASCIMENTO

acreditar no
tempo o erro mais terrível

GASTÃO CRUZ, «Fogo, 41»

O vento faz voar as folhas
que caíram da árvore durante
a noite. Dançam ao sol, como se
a morte as não incomodasse;
algumas, encostam-se ao sopé
da porta, pedindo para entrar;
e vejo-as no chão de madeira,
umas contra as outras, reconhecendo
o espaço que, outrora, espreitavam
quando as janelas se abriam e os ramos
se encostavam ao vidro. Mas 
estas folhas sabem que outras virão,
na primavera que se aproxima, tomar
o seu lugar; e por isso olham-me,
pedindo que as atire para a terra,
junto do tronco, onde a chuva as irá 
transformar em alimento para
as raízes, no eterno círculo
da vida natural.

Nuno Júdice, Uma colheita de silêncios, 2023, p. 24

- vários artigos no «Publico», como ESTE; ESTE; ESTE; ESTE; a 23, no «DN», artigo de A. C. Cortez;
- a 29, no «Postal do Dia», por Luís Osório; de 18 a 22 de Março, em «A Vida Breve»;

quarta-feira, 17 de maio de 2023

«De mãos dadas...»; Natália Correia

 - continua o processo de leitura iniciado com a [AP]:  «sessões» de 20-30 minutos, nas Grandes... [...]; terminada, hoje, pelas 11 e 50, A BIOG. de N.;

- a versão que R. tinha do «Final» (de «origem» esquecida...) não «corresponde» àquela que é aí representada[...] - «acontece»...; a 16 de Março de 93 estava no seu 1.º ano (Prob.o) na «E. do Paraíso»...; 
- nos 2 volumes de «O sol nas noites...» (1 mês depois lançado...) existem  «marcas» de poemas que foram aos «Quad.os», [...]; transcreve-se um desses [tb. parcialmente citado no fim da BIOG];

De mãos dadas com o sonho me extravio
Em alma ardente com asas incivis.
Da rebeldia faço o meu navio
E parto para um corpo mais feliz.

Arvoro o pavilhão do desafio,
Falo com a liberdade e ela me diz
Que à morte deixe o osso inerte e frio
E beba a vida dos ramos à raiz.

Mas ó sarcasmo da humana condição!
O mundo é mais do que eu. Libertação?
O fado soberano a circunscreve.

De mim se conta o libertário gesto?
É o falso brilho da ilusão que empresto
Ao fim mesquinho de uma história breve.

de Sonetos Românticos (1990); transcrito da p. 365, de O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, II Vol. Projornal, 1993

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Netos, Filhos e Avós OU a «obra espera» (Miguéis, Sophia...)

 - se o sucedido com a obra de M. J. de C., - o «cuidado geracional» - a reedição, após décadas de «ausência...» - com a de Miguéis ocorre o oposto» [...]

Rodrigues Miguéis com a filha em Bruxelas 
© FUNDO: MANUEL MENDES/MNAC - MUSEU DO CHIADO © FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

- demorará a «desembrulhar tal confusão» - mas a Obra espera  (...); - por ora, só em «restos de Armazém» ou em ANTIQ. - cf. Exc. do artigo do «Público»:

[...] Na última década [...], as vendas dos livros de Miguéis nunca superaram senão uma vez a centena de exemplares por ano. E alturas houve em que ficaram muito abaixo disso. [...]

- para «questão afim», na Obra de Sophia, entrevista com F. Bertolazzi, a 27 de Dez., ao «Sol»

- de Miguéis, «Documentário Biográfico», de 1998, da RTP: AQUI

- Tese de Doutoramento, 2021:        AQUI

- em Junho de 2025, finalmente resolvido o anterior, a A. & A. inicia a republicação, com «Um homem sorri...» e «Léah e outras histórias». Aleluia.

segunda-feira, 21 de março de 2022

3 versos (para o «Dia Mundial...»)

 3 versos do poema de José Tolentino Mendonça, hoje publicado, no «Público»:

[...] 

se parássemos a escutar uma única e solitária voz humana
no seu esplendor secreto, na sua incandescência, no seu dilúvio mais recuado
recomeçaríamos a história do mundo  [...]

- 4 poetas, 4 poemas, na «Rádio Comercial»

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

«Ondas Gravitacionais: Teorias e Registos»; Ana Luísa Amaral

 - 1 de Nov., Domingo, «Dia de todos os Santos» ou dos «mortos irrequietos» segundo Crónica de MEC de ontem
- na Sexta, M. foi de «Bruxa» e J., de  «ESQUELETO»; na E. do Paraíso houve «Máscaras sobre outras Máscaras»...;
- hoje, a visita a S. António teve «prolongamento», enquanto J. e Cat.B foram à CUF ver da CONJUNT. de J...;

- «preparados» os dois habituais poemas de A. L. A. sobre o Motivo do Nome,  sempre que avançam os Nomes dos HETERO... pessoanos..., em tempos de «COP26» e «WEB SUMMIT», dois «adequados» poemas,  do mesmo livro de 2017:

ONDAS GRAVITACIONAIS:
            TEORIAS

E vejo-me parada, sentada 
a esta mesa, 
que porventura já se repetiu

É luz que se demora, ou é o nosso olhar
que a configura?

Os anos traduzidos 
nesta língua nossa, os milhões de anos-luz
transformados em ondas que devoram
o espaço, o fazem abater-se
e elevar-se?

É raro o que se viu
e caro aos nossos olhos
este acerto, mais desacerto largo
e de mistério

Uma harmonia? Deus?
Ou o amor em diverso formato:

Do tempo: outro hemisfério?


ONDAS GRAVITACIONAIS:
            REGISTOS

Explodiram pelo espaço em rota para lá
da imaginação. Não se sabe de Deus
neste processo de fenda de universos

E as palavras hesitam-se,
paradas.

              Não se ouviu nada, nada foi visto
claramente visto, mas é o que se chama
nesta língua de nós, criada e aprendida
em formato de azul: registo

                   Ana Luísa Amaral, What's in a name?, Assírio & Alvim, 2017, pp. 52,53 ( da segunda «Secção», «Regressos»)






sábado, 23 de outubro de 2021

«Confinamento», Marta Chaves

- ainda em «leitura inicial»,  o livro «Avalanche», de Marta Chaves, já serviu para «fechar» a Oficina de sexta, do «1.º Bloco» -      (aquele em que «Reticências» é D.de T....)

CONFINAMENTO

Visito a rua da janela
e vejo as pessoas
irem ao encontro
do seu desaparecimento.

A corrente de ar
arrecada o invisível,
abre os braços
com uma firmeza fria.

Acontece o ar ser, às vezes,
a criatura a quem 
dou com a porta na cara.

Marta Chaves, Avalanche, Assírio & Alvim, 2021, p. 72

terça-feira, 1 de junho de 2021

«apneia do sono...», Pedro Eiras

 - sem a General, na Zmab; por 4 dias, preparando o Palácio,  para J. e as 3 Men.as..;  - assim, só trouxe 3 livros, dos recentes; do segundo da trilogia de Eiras, o poema 

XXVI:

As funções do corpo, ainda é o menos,
vamos cumprindo sem percalços de maior:
mantemos um horário regular de refeições
tentamos esconjurar a apneia do sono.

Quanto aos imperativos categóricos,
cumprimos dois ou três, quando dá jeito,
se não complica demasiado a agenda
e alguém está a ver.

Quanto ao resto, ora bem, depende:
o mais prudente é estar atento ao jogo,
calcular que trunfos ainda não saíram,
guardar na manga uma carta a mais.

Pedro Eiras, Purgatório, 2021 (Maio), p. 90



domingo, 21 de março de 2021

[21-03] - «... ensina a cair» («O poema...»); Inês Fonseca Santos

 - não, não é o poema de Luiza Neto Jorge; é «O poema ensina a cair» de Inês Fonseca Santos - que explicita L. N. J., em «epígrafe»... - , dito pela própria, na Série do «DIA...» um longo desfile ao longo do dia** em «O poema ensina a cair», de Raquel Marinho...
[** nem todos «ajudam» na localização...]

Recorte inicial:

O POEMA ENSINA A CAIR

Luiza Neto Jorge

Aquilo que o poema ensina /  é a despir // o corpo quente das palavras: / cotovelo, pulso, mão //  e o fio insone de um som / vestido ainda, língua // tocando sílabas, / convertendo ritmos. // E as palavras? / Filhas pelo poema violentadas // entre falas mansas / e indisposições metafísicas.

Inês Fonseca Santos, Os grandes animais, com Ilustrações de João Maio Pinto, 2020, p. 31-32


- outra «série», nos «Jardins (do Palácio) de Belém»

Simone de Oliveira, Ruy de Carvalho e Victor de Sousa celebram o Dia Mundial da Árvore e da Poesia - AQUI

domingo, 26 de abril de 2020

25 (Meu querido...), Inês Fonseca Santos

André Carrilho: 
- C. F. seleccionou um excelente curto poema de Ramos Rosa - publicado em 74 - para a Tela da «E. do Paraíso», ora «Convinado»
- F. «contribuiu, sem contribuir» com dois poemas de obras recentes (ambas de Fevereiro)
- do longo poema de I. Fonseca Santos, «Remessa Livre», as duas últimas (e mais curtas) estrofes (de cinco):

[...]
25 de Abril, aproxima-te, se tens dívidas.
É para te ver melhor.
Para te comer melhor seria, meu pobre subalimentado,
para te devorar seria,
não fosses tu ruína infecta,
eu mãe de filhos por criar.
Enfio-te assim, de lentidão dissimulada,
enfio-te assim os dedos nas rugas
como quem caminha de novo sobre o início.

 25 de Abril, ouve-me:
esse é o teu tesouro.
O teu início.
Acredita em mim; eu pouco mais desejo
senão cobrir-te de louros.
Pôr-te louramente em forma
de contar de novo.
Vê tu bem:
eu gostava de dar-te do O’Neill, do Sousa Braga.
Faz por merecer.
Assim não
soa possível aos meus ouvidos de tísica.
Dever meu seria, enfim, enviar-te beijos
(cumprimentos é coisa do teu tempo),
mas apenas me ocorre um apelo:
meu querido 25 de Abril,
vem-te de novo de pau feito, por favor,
e de épico tesão dá cabo disto.

Inês Fonseca Santos, Os grandes animais, 2020 (Fevereiro), Abysmo, pp. 73 -75 (Ilustrações de João Maio Pinto)


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Hélia Correia na Gulbenkian

- [final de tarde tranquilo, em «descompressão», cuidadosamente planeada para este final de Estação ...]
- H. C. escolheu os jardins da G. para a entrevista e a leitura de dois poemas, em  mais um P. da série «O POema ensina a cair», no Expresso

- Recorte da entrevista:
- A poesia serve para quê?
        A poesia não serve. Costumo dizer que existem duas formas para a mesma aparente natureza da palavra: é serva quando é prática e a usamos para comunicar, seja qual for a intenção da frase; é senhora quando exerce o seu poder criador, estabelecendo as suas próprias regras e significados, provando-se tão inútil para o nosso dia-a-dia como um quadro, uma estátua ou o binómio de Newton.