sábado, 24 de janeiro de 2026

«GOOGLE EARTH», Rui Lage

 GOOGLE EARTH

Onde quer que estejas, considera, poderás
mapear os pastos e os pomares
onde suaram, derreados, teus avós;
sobrevoá-los, de ponta a ponta,
zoom in zoom out
no cemitério que lhes arrecada os ossos.

Estarás sempre com o campo.
Sem tocares o chão.
Sem sujares os sapatos.

E mesmo na hora mais extrema,
quando, entubado, olhares em volta
e não vires senão as paredes nevadas
dos paliativos, 
poderás contemplar os sobreiros, a ponte de madeira,
a pedra da sesta e a macieira que dava 
as melhores maçãs,
como ave migradora que passasse invisível lá no alto.

O homem não é a medida de todas as coisas.
O homem é aquele que mediu todas as coisas

Somente à escala humana
as coisas morrem desmedidas.

                 Rui Lage, Física espiritual - antologia pessoal, 2026, pp. 121-122 (poema de Estrada Nacional, 2016)

[no Comp.or, ontem, R. «esquadrinhou» -  zoom in zoom out - o Chão do Pai Velho e o da Marechal...]

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

«Para desenhar uma mulher», Rita Taborda Duarte

 2. Para desenhar uma mulher

Começa pelos pés
se queres desenhar uma mulher

ignora - por ora - os olhos rotos
no avesso do sono   a turbulência do colo
as águas turvas
sovando o rodízio dos cabelos.

Fecha um olho  estica o polegar
- cabem-lhe perfeitamente oito corpos na cabeça:
é essa   aliás   a proporção áurea da penúria.

Depois é cavar a redor   e içar talo
sorvendo o enxofre das caldeiras:
há-de medrar   ao menos   um pé
de uvas bravas ou a forca
de uma figueira
acanhando a carne dos figos

fixar à raiz uma promessa de água calda
e castigada
ruína a sal e fogo sulfurosa ruim
desaprendendo    à força    a cisma dos caminhos.

Pelos pés se começa uma mulher
só mais tarde se dobra o degrau dos joelhos
até à coxa
e se contorna o sexo recatado - paul
no ventre lêvedo

uma mulher começa sempre pelos pés
de barro: Lilith - mordendo o pó
de onde nascera,
do sarro nas unhas de deus -
coalho para engolir a fome

é ali que respiramos
e só água fervente nos dana a sede.
Se queres
desenhar uma mulher
vale mais começares por um pé
de cabra.

                 Rita Taborda Duarte, Enxofre, Colecção elemeNTário, Flan de Tal, 2025, pp. 25-29