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sábado, 21 de março de 2020

AINDA NÃO É O FIM... - («As Pessoas») - PINA, Manuel António

... NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO
CALMA
É APENAS UM POUCO TARDE

- D. não gosta de nenhum «DIA MUNDIAL», nem do «da Poesia» (...); mas, desta vez, transigiu e foi buscar o primeiro Livro de Pina a «zona Difícil» da Estante da Avó F. - na 2.ª Edição, de 1982, de «a erva daninha» (grande Nome para efémera Editora, certamente...)
- quanto a escolher o poema para estes Dias, [...]

AS PESSOAS
Fernando pessoa         
uma vez, Fernando Le-
mos uma vez, Má-
rio Cesariny
duas ou três

As pessoas têm a sua casa e a sua doença
Mas a casa das pessoas é a sua doença
- Oh as pessoas estão todas doentes de indiferença
E morrem como mortos, da sua doença

Morrem umas na frente das outras as pessoas
Umas são assim outras como são?
As pessoas são más as pessoas são boas
As pessoas as pessoas as pessoas as pessoas

As pessoas somos nós todos ou ainda menos
Oh mário mário que horror irmão
Oh nós não vamos ser assim daqui a uns tempos
- Nós vamos ser assado - Pois não? Pois não?

Nosso Senhor Jesus Cristo não tinha biblioteca
O pobre não tinha troco de cinco escudos
- As pessoas mário tão pálidas tão quietas! - 
A rapariga da frutaria apesar de tudo


Manuel António Pina, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde (1974), p. 39 da 2.ª Ed., 1982 (da secção II - «A segunda pessoa», 1965, 66)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Hélia Correia na Gulbenkian

- [final de tarde tranquilo, em «descompressão», cuidadosamente planeada para este final de Estação ...]
- H. C. escolheu os jardins da G. para a entrevista e a leitura de dois poemas, em  mais um P. da série «O POema ensina a cair», no Expresso

- Recorte da entrevista:
- A poesia serve para quê?
        A poesia não serve. Costumo dizer que existem duas formas para a mesma aparente natureza da palavra: é serva quando é prática e a usamos para comunicar, seja qual for a intenção da frase; é senhora quando exerce o seu poder criador, estabelecendo as suas próprias regras e significados, provando-se tão inútil para o nosso dia-a-dia como um quadro, uma estátua ou o binómio de Newton.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

«fogacho ambientalista»

- quarto dia da Pausa P., na ZmaB, no Rita...;  
- W. já respondeu a uma «Frescura», que «pretendia anular depois de ter pelo menos 15, em EX.» e saber «o que vai sair»...; notável (e, do resto do Perfil, nada se diz...)

- sem filmes para ver, a tarefa da leitura dos 3 ou 4 que faltavam, na Lista das 12, para o PRoj. de L., foi facilitada; de momento, em simultâneo, termina-se «A Casa Azul», de Claudia Clemente, e «Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida...; também se terminou «A Alegria chegou», de A. Lucas Coelho.... 
RECORTE deste último:


O condutor do jipe é a única pessoa nas terras do Rei que fala um pouco da língua de Zu, além da tradutora, que não conduz. Apresenta-se como sub-capataz. Vem de arma ao ombro.
Zu espera nunca mais pôr os olhos nestas pessoas, depois de comprar a propriedade. Será uma micro-região duplamente libertada. Livre também das manápulas do Rei, avaliando pelo que Zu já viu. E agora vê milhares de reses, lagos artificiais, pastagens, o erro em extensão, abatendo a selva.
O sub-capataz explica que estão a avançar na direcção do rio, junto ao qual fica a mina, e daí descerão para o terreno à venda. Quando o dique rebentou, a fiscalização da reserva natural quis mostrar trabalho, conter o fogacho ambientalista na cidade. O Rei foi proibido de abater árvores em toda aquela zona que colava com a reserva, incluindo a ilha fluvial onde o leito do rio alarga. Como ia ficar com um bem mal parado, decidiu vendê-lo. Demorou, pois a quem é que interessa uma selva que não pode ser cortada?
A resposta vai aqui no jipe. Zu limita-se a ver, ouvir, não faz perguntas. Nada mais cansativo do que passar muito tempo com estranhos. E, além de estranhos, carniceiros. Só quer que tudo isto termine rapidamente.

Alexandra Lucas Coelho, A nossa alegria chegou, Companhia das Letras, 2018, pp. 111-112

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

domingo, 6 de janeiro de 2019

plantas (o extraordinário mundo introspectivo das) - Rosa Oliveira

[relido na Pausa, na Zmab...; abre a segunda Estação de 1819..]

o extraordinário mundo introspectivo das plantas

morrem mudamente
estão doentes e não gritam
zangam-se umas com as outras
e connosco
e não esbracejam
e renascem em pouco tempo
se lhes dermos um pouco da nossa pequena
mortal terra mortal

cobrem os crimes humanos
esquecidos na floresta do nosso esquecimento
precisam de água como nós
em certas estações do ano e em certos climas
embriagam-se afectivamente e descaem
nos nossos ombros
acompanham a música e o silêncio
caem    soçobram    levantam-se
tudo isto sem saírem do mesmo sítio

as plantas podem viver dentro das nossas unhas
detrás dos nossos olhos
levam tiros frágeis
disparados pelos nossos
neuróticos impulsos
compassados como a valsa
de mil tempos
as plantas respiram para dentro de nós
usam itálicos como confetis
inventam inimigos
prosseguem

sou a pessoa que contempla as plantas
e não gosta de animais
os tais animais muito, muito lentos que são as plantas

Rosa Oliveira, Colóquio-Letras, n.º 198, Maio/Agosto 2018, p. 180



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

«ESCADAS (O cansaço de subir...)», Fernando Luís Sampaio

- [do C. de T. de ontem, nada a referir...]
- hoje, no do 1.º Bloco, até Mestre C. S., de G. D.,  «fez o Pleno»... 
- finalmente em PAUSA, W. foi para a fila NATAL. da BERT. - ROMA, para o livro de que se transcreve um só... [com natural dificuldade na escolha...]

O CANSAÇO DE SUBIR ESCADAS

As portas nunca estão abertas nem fechadas,
o caminho rareia entre caminhos, a mesa
posta para uma só sombra. Nem a tua nem a minha.
Disponível a tactear a massa sombria 
que respiras, o horizonte está limpo e deita
nuvens e vento sobre estas ruas.

Um a um sobes degraus e declives,
há sempre uma corda no fim do patamar,
há sempre mais degraus,
há muito que o sobressalto te selou
os lábios, nada dizes, uma torrente escava a desilusão

de nunca mais regressares.
E das cordas que vais puxando
de patamar em patamar como 
de um poço ascendem as ondas
secas da trovoada, o teu corpo 
a dizer que não.


Fernando Luís Sampaio, Aprender a cantar na era do karaoke, Tinta da china, 2018, p. 215

[do livro inédito acrescentado aos anteriores...; ver artigo de H. Pinto Santos, de 17-12, no Ípsilon]

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Maçã - Organização administrativa da - Ruy Belo

[reencontro resultante do percorrer dos índices dos livros de Ruy Belo, em busca de poema, outro, não este, para «PAO»...]

ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA DA MAÇÃ

À sombra desta árvore recente-
mente nascida só de imaginá-la
outra vez volto incorrigivelmente
e em antigas águas molho a fala

Saúdo as novas folhas como quem
nas folhas tem a vida permitida
Meta mente física consagrem
os poetas a termos vozes de partida

Loucura podre perto de Setembro
marmóreo mar em que a vista é adunca
países confundidos não me lembro

da pátria que pariu cada lembrança
e cresce organizada na criança
madura mate mais maçã que nunca



transcrito da 4.ª ed. de Boca Bllingue (1.ª ed: 1966), Presença, 1997, p. 59

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

MAPA DO DIA + Daniel Jonas

- se, após cada REU, M. só se «acalmar» com novas..., não haverá ORÇ que resista em ano (s?) como este... (em 0001, havia...)
- mas, ontem, após a EST., lá se foi à BERT - ROMA:

- Manuel Alegre: Auto de António
- Daniel Jonas: Oblívio

de Oblívio (45 sonetos...):

NÃO CRESÇAS. NÃO AINDA. ESPERA UM POUCO.
P'ra sempre nestas linhas sê quem és.
Deter-te é contra a vida, um revés
Contranatura, eu sei, posso ser louco.
Eu sei que a vida passa e é urgente.
Eu sei que as flores se abrem prà beleza,
Não desconheço as leis da natureza,
Mas és tão de repente tu ingente!
A mão tão pequenina que me davas
E que ontem era minha hoje é tua, 
E ontem 'inda andávamos na rua
E davas-me a conchinha e a apertavas.
Pois bem, hei-de acertar meu desatino,
E em troca ser, velhinho, o teu menino.

Daniel Jonas, Oblívio, Assírio & Alvim, 2017 (Outubro), p. 55

[sublinhado acrescentado]


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Actas + «Na morte de um contabilista» - G. C.

- «designado» para a Acta do C. GERONT. de ontem (2 ou 3 abaixo dos 55...), das 14 e 30 às 17 e 45, com 95% de «palavras gastas», «o novo CHBY» espera que os próximos CAST.s sejam...
- por isso, só «esporadicamente» o novo livro de Gastão Cruz o «salvou»...

NA MORTE DE UM CONTABILISTA

As contas estão feitas e decerto fechadas
(não sei se são sinónimos os termos com que tento
descrever em que ponto
final foram deixadas)

falávamos há dias das actas que faltavam
e em falta ficaram

não as irá fazer e não sei se isso importa
só se fará a acta da entrada no fogo
ou na terra,
ar e água talvez não façam falta

Gastão Cruz, Existência, 2017 (Setembro), Assírio & Alvim, p. 59 (da 3.ª secção, «Factos»)

terça-feira, 14 de março de 2017

«M., a última palavra», Manuel António Pina

M., a última palavra

Entre restos de vida passada
refugiava-se o coração de cada um de nós no seu covil,
uma gota de sangue, pequeno vitral de reflexos coloridos,
na orelha de M., a pistola no chão perto da mão, ainda quente a pistola.

O que quer que tivesse acontecido
fora em sítios inacessíveis às notícias dos jornais
e aos flashes das máquinas fotográficas
voando agora como aves cegas à sua volta.

Um grande mutismo cobrira tudo
gelando os nossos passos e o que disséssemos
ainda antes de pronunciado;
percebia-se, de quem sempre quis ter a última palavra.

Não se percebia era a falta de uma explicação ou de um sinal
(ao menos um sinal justificar-se-ia dadas as circunstâncias),
apenas um botão do casaco mal abotoado,
provavelmente sugerindo alguma impaciência.



Manuel António Pina, in Público, «P2», 09-04-2011, p. 7

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

«santa-clara-a-reciclada» (ou «o tapete mental do museu») - Rosa Oliveira

[são 9 e 15;  o Qd.o  vai demorar...;
- reencontrado no sábado, ainda no saco da BERT....; abriu-se na página 66, a deste poema...; 
- em semana «pré-Envelopes», é um dos dois [o outro: «Sombras Brancas» - ant. org. por J. S. B.] que quotid. vem na «Sacola»...

santa-clara-a-reciclada

decidi então com alguma calma irritada
não entrar no museu
desta vez não 
vou ficar no tapete da entrada
aquele tapete que há em todos os museus e de onde se reza para meca
vou ficar ali e fazer um poema sobre a luta de classes
vou abrir os braços epicamente
como se estivesse num filme de cecil b. demille

nem sequer me vou sentar na ex.planada
a beber o rico café nojento dos museus
vou vociferar em surdina para as minhas mãos vazias
só porque não trouxe um livro onde me esconder

há um homem aquático de aspirador em punho
um silêncio respeitoso entalado no relvado
há gente comovida com o cenário intocável
há gente intocável num cenário comovido a oeste e a leste
a tristeza ressuscitada desce com a tarde
pelo alçapão histórico

não vou gastar tempo com descrições invisíveis
os leitores saltam à frente com olhos de coelho
a ler o final do poema como se isso fosse um alívio

teoricamente é uma infantilidade
mas não é pior do que ficar
petrificado no tapete mental do museu


Rosa Oliveira, Cinza, Tinta-da china, 2013, p. 66


domingo, 4 de dezembro de 2016

«O Amor próprio» - Fernando Pinto do Amaral

[recente, de nov., com 56 textos, Manual de Cardiologia tem sido uma das leituras de «entre Envelopes e, ou, Qd.os»...]
[na quinta, 24, esteve nas «mãos» de M. P., do 2.º Bloco, que ... («e o resto não se diz...»)]

FORA DE PÉ

Rien de plus sale que l'amour-propre.
                        Marguerite Yourcenar

Desiste de falar    Ninguém virá
abrir nenhuma porta    responder
ao vazio     Agradece
essas poucas migalhas     Mendiga
seja a quem for apenas mais um dia

Abdica de tudo      desse trono
de barro     Estás enfim 
longe da terra    sim    cada vez mais
fora de pé
fora de ti     à deriva
talvez sem salvação     A partir de hoje
deixaste de ser tu     de dizer «eu»

O amor é talvez isto     «Viver num
coração dentro de outro coração»

O amor é assim     só te ensina 
a perder

O amor     desamor-próprio


Fernando Pinto do Amaral, Manual de Cardiologia, 2016 (nov.), D. Quixote, p.27


           [Carlos Vaz Marques, no «livro do Dia» de 23, na TSF, diz o primeiro,  «Porquê.» - AQUI]


terça-feira, 8 de novembro de 2016

«A Gorda» - Isabela Figueiredo

[rapidamente lido em 4, 5 dias, ...;
- não se escolhe um excerto com «ligação direta» ao título - ...]

[...] E a mamã morreu mesmo, sem conseguir o feito de entrar docilmente na noite serena e odiando a luz que começava a morrer. Como a entendo! Que difícil será desistir, deixar para trás, libertar o peso que queremos manter porque esteve connosco e nos matou e amparou no mesmo minuto, porque tudo é o que é e o seu contrário. Como é que se abdica da vida?!
     Era para lhe ter pedido uns conselhos na véspera à noite, mas já era tarde. A conversa fica adiada para um sonho futuro. Não lhe dei o beijo de boas noites. Há um dia em que todas as noites acabam.
    Tenho-a sepultada em campa rasa no cemitério de Vale de Flores, Feijó, com uma tabuleta de metal negro onde pintaram um 880 a tinta branca. Talhão B, campa 880. A mamá deixou de ser um nome associado a uma data de nascimento, filha de fulano e sicrano, nascida na freguesia tal, de determinado concelho do país. Pesa-me, porque a mamã nunca foi uma combinação de números. A mamã atravessou vidas e oceanos. A mamã rasgou o véu da existência e inscreveu-se nela, para sempre. Um número?!
    Preciso de comprar uma  lápide para a mamã, para que ela veja, de onde está, que me aguento sozinha, apesar da sua ausência, que pode orgulhar-se de mim pelos séculos dos séculos. Mas o orgulho tem de esperar. Os cortes no salário, os impostos e a sobretaxa do IRS mal me deixam respirar. Dá para viver, não para despesas adicionais. A prima Fá emprestou-me o valor do funeral. Se a mamá soubesse, meu Deus, se ela soubesse! Ainda bem que se foi.

A Gorda, Isabela Figueiredo, Caminho, 2016 (outubro), p. 209, 10


Sete anos depois de se estrear com (...),
Isabela Figueiredo publica, aos 53 anos,
o seu primeiro romance - 
NUNO FERREIRA SANTOS

[crítica de Hugo Pinto Santos, no «ípsilon», de 24 - 11 -        AQUI ]

[«Panorama»,  de Rui Catalão, no mesmo «Endereço» - com fotos... AQUI]

- ENTREV., a Ana Sousa Dias, a 17 de Agosto de 18, no DN»

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

sábado, 3 de outubro de 2015

«O poema ensina a cair»

Foi uma série - de 2014, Agosto a 2015, Junho -  do Expresso - «42 Vozes Poéticas» - que a Si ou a Outras se liam - «conjunto» muito diverso e «amplificado»... 
- que  voltam a ser disponibilizadas, na sua totalidade [...]

Recorte inicial:
Este é um documento único, de conversas e leituras com 42 poetas contemporâneos portugueses. Alguns são jovens da geração de 70, outros são mais velhos e começaram a dar cartas na poesia portuguesa na segunda metade do século passado. Eis a a compilação, aberta a todos os leitores, da primeira temporada d' O Poema Ensina a Cair, [...]                                 AQUI 

[Quanto a «O poema ensina a cair», relembre-se que é título e 1.º verso de um poema de Luiza Neto Jorge]

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Cavalos brancos (Lenda dos) - Manuel Alegre

Bairro Ocidental = Sentimento dum (Novo) Ocidental ?

- Deste livro  de Manuel Alegre, de 2015 - já lido - um poema muito referido será «Resgate» -  que pode ser ouvido na voz de Luís  Gaspar, no seu  «persistente» Estúdio Raposa

- transcreve-se outro [...]

LENDA DOS CAVALOS BRANCOS

Cavalos brancos me levaram
por ti por mim se perderam
e nunca te encontraram
e nunca me trouxeram.

Noite a noite galoparam
noite a noite me perdi
cavalos brancos me levaram
sem nunca sair de aqui.

Desertos lagos de sal
vales e montes atravessaram
ilhas azuis de coral
cavalos brancos me levaram.

Por sobre as águas passaram
sobre a espuma e a areia ardente
e nunca chegaram 
ao país ausente

Um era acaso outro vento
galoparam além de mim
cavalos brancos de dentro
com eles fui e não vim.

Sempre de mim para ti
nunca nunca te encontraram
noite a noite me perdi
cavalos brancos me levaram.

Manuel Alegre, Bairro Ocidental, 2015 (Maio), D. Quixote, pp. 31, 32

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Blimunda e Lilias, I - «Que nome tem vossemecê?» - (Hélia Correia)

- Lilias Fraser, tb. Peres, tb. MacLean...

- antes da última «Ronda» de Envelopes, C. retomou, na p. 140, a leitura há um ano interrompida - agora sem o «respaldo» da Força Jovem de Sempre Sorrisos - que por aí andará a «desbravar» caminhos univ....; 

- e lá «alcançou» Blimunda, a cerca de quatro páginas do final  (XVIII cap.):

Recorte(s): [sublinhados acrescentados]
        
       A mulher riu. Tinha um tão claro riso que Lilias julgou, por um momento, achar-se rodeada de crianças. No entanto, apesar do seu cabelo, ainda muito escuro, e do seu rosto, liso e moreno, onde brilhava a leve sugestão de emulsões orientais, vinha dela uma esplêndida velhice. Atravessara o tempo e convencera-o a separar-se dela para sempre. Olhava para Lilias com firmeza, como quem dá o último retoque numa obra que honrou a expectativa.
      O quarto era pequeno e abafado, de tectos muito baixos, em abóbada. A luz esvoaçava entre as paredes, desenhando arabescos com as asas. Lilias soerguera-se do enxergão, levantada pelos olhos da mulher. [...]
        A mulher disse:
        - Comes e descansas, porque essa fuga não acaba aqui.
        E levantou-se. Usava trapos grossos e sobrepostos. Isso não lhe dava o ar de uma mendiga. Olhava o lume. Lilias viu o sinal manchar-lhe a face, que era a face direita, a do poder.
        - Como te chamas?
        - Lilias Fraser, madam.
       A mulher acercou-se novamente. A sua voz cantada enchia o ar como se ressoasse numa igreja. «Perdeste muito sangue. Amanhã vejo se a criança está viva na barriga.»
       Lilias extinguia dentro de si mesma a vigilância de que precisara para fazer o caminho até ali. E aquela fraqueza que a tomava, em vez de a assustar, trazia o embalo da sua infância ao colo de Margaret. «Que nome tem vossemecê?»
      - Blimunda - disse a mulher - Blimunda Sete-Luas.
      - É um bonito nome - disse Lilias. Quis pegar-lhe na mão, porém Blimunda já não estava a seu lado. O próprio fogo se tornara invisível, devagar. [...]


Hélia Correia, Lilias Fraser (2001), 2.ª ed., Relógio D'Água,  2002, pp. 279, 280



domingo, 17 de maio de 2015

Cantar de Amigo - Ana Luísa Amaral

[para M. M. M. (A.), que se «encantou» com o Género, criando uma Jóia «para»  C. de A. de D. Dinis, de «Incipit» " - Amigo querede-vos ir" 
- AQUI e AQUI- «YT» (versão musicada e cantada)]

Revisitação do Género em poema do recente livro de Ana Luísa Amaral, que «dialoga» com o mais «conhecido» texto do «Cancioneiro Dionisíaco»... -

[Transcrito incompleto]

PEQUENO CANTO DO AMIGO

Ay mar, ay mar tão escuro e fundo,
se sabeis novas do meu amigo, 
ai mar e u é?

              Sem novas, minha amiga,
             que o mar desta cantiga
             é onde o vosso amigo:

Ay tempo, ay tempo tão sustido,
se parastes ao ver o meu amigo, 
ai tempo  e u é?

              Sem novas, minha amiga,
             que o mar desta cantiga
             é onde o vosso amigo:

Ay canto, ay canto tão parado,
deixai-me pelo menos 
ficar do meu amigo
algo lembrado

[...]


Ana Luísa Amaral, E Todavia, 1.ª ed., Assírio & Alvim, 2015 (Abril), pp. 49, 50



domingo, 1 de março de 2015

«Saudade Burra» [F. A. P.]

- foi na sexta; cumprindo essa espécie de  «quota anual»,  lá foi o Quadrado «invadido» pela poesia de F. A. P. [...] 


- e, desta vez, também se mostrou um Recorte do DOC. de Nuno Costa Santos, de 2012 (RTP 2)

- enquanto a «Santa» o permitir... - a «OuVer», no «YouTu»:

https://www.youtube.com/watch?v=XBPTFsOSBxw